Victor Hugo e a Pena de Morte

Marcos Bagno

Este ano é o sesquicentenário de publicação do romance Os Miseráveis, de Victor Hugo (1802-1885). As comemorações acontecem no mundo inteiro, e não por acaso. Victor Hugo é um dos personagens mais colossais da história da literatura. Romancista, poeta, dramaturgo, deputado, senador, sua vida se estendeu por quase todo o século XIX e com ele se confunde. A influência de Hugo é impressionante. Basta lembrar, por exemplo, que a figura do Coringa, da série Batman, se inspira no personagem Gwynplaine do romance O homem que ri, mutilado para que seu rosto exiba permanentemente um grotesco sorriso de orelha a orelha. O infeliz Quasímodo, o famosíssimo Corcunda de Notre-Dame, é outra figura emblemática da dialética trágica do sublime e do grotesco, espinha dorsal do projeto estético de Hugo e do Romantismo, do qual é o maior nome na França. Duas de suas peças teatrais foram transformadas em célebres óperas por Verdi: Le roi s’amuse (fonte do Rigoletto) e Hernani (Ernani, na ópera). O próprio nome Victor Hugo se tornou comum nos países de língua portuguesa e não param de nascer crianças assim batizadas, principalmente no Brasil.

Embora entre nós Victor Hugo seja conhecido sobretudo por seus romances, entre os quais Os trabalhadores do mar, traduzido por ninguém menos do que Machado de Assis, em sua terra natal ele é mais celebrado como poeta. Sua monumental La Légende des Siècles é uma epopeia que aborda, em dezenas de milhares de versos, a história da humanidade desde os primórdios até um futuro antevisto.

Defensor das causas sociais mais prementes de seu tempo, Victor Hugo denunciava a traição cometida por Napoleão e seus sucessores contra os ideais libertários da Revolução Francesa. Republicano inveterado, foi crítico contumaz de Luís Napoleão Bonaparte que, eleito presidente, promoveu em 1851 um golpe de Estado e se proclamou imperador com o nome de Napoleão III. Opondo-se ferozmente ao golpe, Victor Hugo se viu obrigado a se exilar na ilha britânica de Guernesey, de onde podia avistar a costa francesa sem poder pisá-la. Viveu nesse exílio por quinze anos e foi justamente lá que concluiu a redação de Os Miseráveis.

A injustiça social, de modo mais amplo, sempre foi o grande tema da obra hugoana. Seus aspectos mais específicos foram objeto de muitos dos escritos do autor: a miséria, a prostituição, a submissão das mulheres, a arbitrariedade dos poderosos, a exploração do trabalho infantil, o dogmatismo obscuro da Igreja, o colonialismo, a escravidão etc. Estudiosos contemporâneos sugerem que até mesmo a questão homossexual foi abordada, de forma sutil, em alguns textos ficcionais de Hugo. No entanto, sua luta mais explícita e militante foi contra a pena de morte. Sobre ela Hugo escreveu romances além de vários discursos pronunciados na Assembleia Nacional e no Senado. Mas a pena capital só foi abolida na França em 1981, no governo socialista de Mitterrand, quase cem anos após a morte do escritor.

No Brasil, embora não oficializada, a pena de morte é praticada todos os dias pelo nosso aparato policial, último bastião das práticas repressivas e assassinas da ditadura. Suas vítimas preferenciais, num país marcado por tremenda desigualdade social, são as crianças de rua, os adolescentes negros e mestiços, os traficantes que fazem concorrência à polícia no comércio das drogas, moradores de rua, advogados e juízes etc. Até quando conviveremos com essa prática que é, segundo Victor Hugo, “o signo especial e eterno da barbárie”?

carosamigos

SE ISSO É FILOSOFIA, DEUS NOS SACUDA!

Marcos Bagno

Um amigo me deu a dica: “já leu o que Olgária Mattos escreveu sobre o Acordo Ortográfico?” Fui ler, no site Carta Maior (27/4). Fiquei perplexo. Primeiro, por causa da forma. A renomada professora de filosofia da USP produziu um texto anfigúrico, de vocabulário tão empolado que me deu saudades de ler Platão em grego, mais agradável e claro. Depois, pelo conteúdo. Embora eu seja favorável ao Acordo Ortográfico, gosto de ouvir os argumentos em contrário, quando são elaborados com um mínimo de pé e cabeça. Pé e cabeça, porém, é o que falta ao texto de Olgária, cuja quase obscuridade não consegue esconder as batatadas e abobrinhas que ela plantou ali.

Vejam só: A mais recente reforma ortográfica do português no Brasil subordina a língua às contingências do mercado e à agramaticalidade de sua fala oral, rompendo o equilíbrio entre a anomia e a gramatização que caracterizam uma língua viva. Expressionista antes da reforma, idéia ou idêia, a pronúncia diferenciava o português do Brasil e de Portugal, suscitando o metron de seu estranhamento e de seu parentesco, revelador do ethos de um povo. Assim, diferentemente de unificar a palavra escrita, a reforma neutraliza a língua falada, despersonalizando-a.

Santa Epistemologia, orai por nós! Falar de “agramaticalidade da fala oral” (fala oral?! existe uma escrita oral?) é ignorar que toda a linguística moderna, desde 1916, nega peremptoriamente a ideia de que a língua falada é “agramatical”, isto é, não segue regras, é caótica, como supunham os primeiros filólogos gregos, três séculos antes de Cristo! Nossa filósofa confunde língua com ortografia (erro primário que os livros didáticos de 1o ano do fundamental tentam logo extirpar) ao imaginar que a retirada do acento da palavra “ideia” vai provocar alguma diferença na pronúncia aqui e em Portugal. Ridículo! Antes do Acordo já escrevíamos “titia”, embora os pernambucanos pronunciem “titia” e os cariocas “tchitchia”. Isso por acaso alguma vez “neutralizou” a língua falada? Abobrinha pura! Achar também que a língua falada sofre de “anomia” é negar um século e meio de estudos da psicologia cognitiva, da linguística, da biologia, da psicolinguística, da filosofia da linguagem…

E a batatada final: Por valorizar na língua seu caráter sumário, cômodo e elementar [como é?], esta reforma dissolve a dimensão ética da linguagem, da leitura e da literatura [uau!]. Sob a hegemonia da oralidade agramatical e anti-literária, as desgramatizações [hein?!] não seguem as tendências da língua viva, mas obscurecem nuances e refinamentos na comunicação oral e escrita”. O que é, meu Santo Tomás, o “caráter sumário, cômodo e elementar da língua”? Por favor, me diga, porque nós linguistas temos uma dificuldade tremenda em convencer os alunos do caráter complexo, perturbador e intrincado das línguas humanas! E, por fim, falar da “oralidade agramatical e antiliterária” é traduzir, em termos mal empregados, o senso comum, para o qual só a escrita tem “gramática” e só é possível produzir “literatura” por escrito. Pré-científico até a medula!

Pobre Platão! Pobre Aristóteles! Pobres estoicos! Pobre Agostinho! Pobre Saussure! Pobre Peirce! Pobre Wittgenstein! Pobre Benveniste! Pobre Lacan! Todo o vosso trabalho foi em vão!

E ainda falam mal das opiniões dos jogadores de futebol…

carosamigos

QUEM SÃO OS PURISTAS?

Marcos Bagno

Purista é quem defende a “pureza” da língua contra todas as formas inovadoras, sempre vistas como sinais de “decadência”, “corrupção” e “ruína”, não só da língua mas também, muitas vezes, dos valores morais da sociedade. O termo purista, não por acaso, surgiu na França no século XVII, no apogeu do regime absolutista, centralizado na figura de um rei todo-poderoso, de uma concepção de mundo e de sociedade doentiamente elitista, que só dava valor ao que vinha do topo do topo, da nata da nata.

O pai do purismo é o escritor Vaugelas (pronuncia-se vojlá). Ah, sim, desculpe a intimidade: Claude Favre, barão de Pérouges, senhor de Vaugelas (1585-1650)… Com esses títulos, evidentemente, ele só podia achar que a “boa linguagem” era a dos aristocratas. Ele escreveu, de fato, que o uso correto do francês devia se inspirar na língua falada pela “parte mais sadia da Corte”. Então, não basta ser nobre, não basta ser aristocrata, é preciso ser mais nobre que a nobreza, mais aristocrata que a aristocracia… O espírito de Vaugelas se incorpora hoje em muitos paspalhos e sacanas que andam por aí atacando as “impurezas” do português brasileiro.

Hoje em dia, nenhum purista gosta de ser chamado assim, porque, com o tempo, o rótulo se tornou pejorativo. No entanto, com um grau maior ou menor de intolerância, esses que andam dando “dicas de português”, escrevendo sobre a “falta de estilo” dos outros, chamando os brasileiros de “asnos”, “imbecis” ou, pior, de “caipiras” e “índios” (como se fossem xingamentos) são todos inegavelmente puristas.

Uns se disfarçam com um aparente liberalismo, dizem que não se pode discriminar ninguém pela linguagem, etc., mas, no final, sempre acabam pregando a obrigação de se usar as formas mais conservadoras naquilo que chamam de “padrão culto formal”, que nunca se preocupam em explicar o que é. Outros usam um humor duvidoso, conquistam o leitor com piadinhas sempre muito preconceituosas para nos convencer de que no Brasil se fala um português “de rua, de botequim ou de cama”, como escreveu um deles.

A atitude irracional dos puristas fica evidente no absoluto desprezo que eles têm, não só pela linguística científica (o que é bem compreensível, sendo eles o que são), mas também pelo trabalho dos gramáticos e dicionaristas profissionais. O purista sempre recorre a fórmulas como “segundo a tradição gramatical”, “nos melhores dicionários” e coisas parecidas. Mas essa alegação é retórica vazia. Os gramáticos e dicionaristas de verdade reconhecem, com frequência, as inovações que os falantes têm introduzido na língua e dão sua chancela a esses novos usos. Pergunte a um purista, por exemplo, se tanto faz usar “despercebido” ou “desapercebido”. Ele vai dizer imediatamente que não, que cada uma das palavras tem sentido preciso e diferente. Mas no dicionário Houaiss a gente lê: “ante o emprego desses dois vocábulos como sinônimos por autores de grande expressão […] a rejeição [da sinonímia] faz-se inaceitável”.

Pior é quando eles querem reformar a língua no tapa, tentando impedir usos consagrados há séculos, presentes em todas as modalidades da língua, inclusive na melhor literatura. Típico exemplo: um desses supostos especialistas que, tornado célebre por sua onipresença na mídia, tirou do colete a regra bisonha de que a expressão “risco de vida” está errada e que só podemos falar de “risco de morte”. Pronto: foi o que bastou para todos os repórteres da televisão começarem a falar de “risco de morte”. É mole? Xô, fantasma de Vaugelas! T’esconjuro!

carosamigos

QUEM RI DO QUÊ?

Marcos Bagno

publicado em Caros Amigos, janeiro de 2009

Uma das grandes contribuições da ciência linguística foi provar a existência de traços universais, presentes em todas as línguas humanas. E poderia ser diferente? Afinal, todos os humanos, apesar de diferenças externas, superficiais (cor da pele, formato dos olhos, textura do cabelo), são biologicamente uma única espécie, dotada das mesmas potencialidades cognitivas, já que o cérebro é o mesmo. Por isso, o grande Lévi-Strauss pôde elaborar uma antropologia que identificava o que há de comum, de similar e de universal nas culturas humanas, apesar das aparentes diferenças.

Com isso, aprendemos que as línguas passam pelas mesmas etapas em suas transformações. A mudança linguística é um processo sociocognitivo, isto é, ela se deve a fatores sociais (variação dialetal, contatos entre falantes de línguas diferentes etc.) e a processamentos mentais (analogia, reanálise, metáfora, mentonímia, abdução etc.) e ocorre ininterruptamente. Só que ocorre, em cada língua, com ritmos diferentes.

Para o senso comum, porém, herdeiro de uma visão arcaica e pré-científica de linguagem, surgida no mundo grego no século III a.C., a mudança linguística representa a “corrupção” e a “degradação” da língua, sempre identificada exclusivamente com a língua escrita dos grandes escritores, como se não existisse a língua falada e como se a escrita não se manifestasse também em outros tipos e gêneros textuais.

Essas ideologia preconceituosa impede que as pessoas (inclusive profissionais da linguagem, professores de línguas e, algumas vezes, até linguistas!) percebam fenômenos interessantíssimos que servem (ou deveriam servir) de base para muitas deduções importantes sobre o funcionamento das línguas. A cegueira (e a surdez) linguística se enraizou profundamente na cultura ocidental e os cento e poucos anos de vida de uma verdadeira ciência da linguagem ainda não foram suficientes para abrir as mentes, os ouvidos e os olhos da maioria das pessoas sobre o assunto.

Os brasileiros vão estudar inglês e aprendem que nessa língua a morfologia verbal é simplíssima. No presente, a única forma diferente das outras é a da 3a pessoa do singular, que ganha um -s (he lives), enquanto as outras permanecem idênticas (I, you, we, they live). No passado, tudo fica exatamente igual (I, you, he, she, it, we, you they lived). Ninguém se assusta com isso, ninguém ri disso, e muitos até acham bom que seja assim, porque é mais fácil de aprender do que nas línguas (como o português, o alemão etc.) que têm uma morfologia verbal bem mais diversificada.

Qual é a reação, porém, desses mesmos brasileiros quando topam com algo do tipo eu morava, tu morava, ele morava, nós morava, vocês morava, eles morava? O riso, o deboche ou, no melhor dos casos, a compaixão pelos “infelizes caipiras” que “não sabem falar direito”, como se fossem menos inteligentes ou até menos humanos que os demais falantes. Ora, do ponto de vista exclusivamente estrutural, não há nada de melhor em I / you/ he / she / it/ we / you / they lived nem nada de pior em eu / tu / você / ele / ela / nós / a gente / vocês / eles / elas morava… O fenômeno linguístico é o mesmo, a recepção sociocultural do fenômeno — e só ela — é que é diferente. E é aí que a porca torce o rabo!

carosamigos

QUEM PRECISA DESSA DEFESA?

Marcos Bagno

 Falar em defesa de línguas só se justifica quando se trata de idiomas que correm perigo de extinção. Das quase 7.000 línguas catalogadas hoje no mundo, cerca de 2.500 se encontram em risco. É o caso, por exemplo, de praticamente todas as línguas indígenas faladas no Brasil: das 180 conhecidas, apenas 25 têm mais de mil falantes. Tudo justifica a elaboração de políticas de proteção, defesa, ensino e divulgação dessas línguas.

Mas falar de “defesa” do português é um discurso que se insere numa esfera político-ideológica completamente diferente. Uma esfera reacionária e elitista. Afinal, para que defender uma língua que, só no Brasil, tem 200 milhões de falantes — o que faz do português brasileiro a terceira língua mais falada do Ocidente, depois do espanhol e do inglês?

No entanto, foi precisamente de “defesa” que tratou um encontro promovido em 23 de maio último por duas entidades cuja existência até hoje me espanta: a Academia Brasileira de Letras e uma de suas excrescências, a Academia Paulista de Letras. Essas entidades, como bem sabemos, não têm serventia alguma em nossa vida social e cultural. No site desse encontro (chamado, incorretamente, de “seminário”), era possível ler a seguinte pérola da estilística balofa: “Está cada vez mais difícil para os professores de Português, dos três graus de ensino (fundamental, médio e superior) desempenhar o magistério no campo da língua portuguesa, tendo em vista as controvertidas opiniões de especialistas, que entendem dever-se debater o uso dos diversos linguajares de ocasião diante da hegemonia do vernáculo, a chamada língua culta nacional (língua padrão).”

 Esse pequeno parágrafo seria suficiente para uma aula inteira de análise do discurso ou de sociologia da linguagem. Fala-se de “controvertidas opiniões de especialistas” que suspostamente estariam dificultando o trabalho dos professores de português. Mas quem é que rotula de “controvertidas” essas opiniões? Se elas provêm de “especialistas”, por que os poucos membros das Academias se acham capazes de considerá-las “controvertidas”? O que têm a dizer sobre ensino de língua figuras como Ivo Pitanguy (médico), Nelson Pereira dos Santos (cineasta), Antônio Ermírio de Moraes (empresário), Eros Grau (jurista), Gabriel Chalita (sabe-deus-o-quê), Merval Pereira (inclassificável) ou Marco Maciel (réptil)?

E o que dizer dessa construção: “dever-se debater o uso dos diversos linguajares de ocasião diante da hegemonia do vernáculo, a chamada língua culta nacional (língua padrão)”? Como perguntariam os ultrapolidos ingleses: “What the fuck?”. Que josta vêm a ser “linguajares de ocasião”? Por que essa gente não vai estudar um pouco, abrir um manual básico de linguística ou sociolinguística para entender o que são variedades linguísticas, regras variáveis, heterogeneidade regulada, e até mesmo vernáculo, que na linguística moderna é coisa muito diferente do conceito jurássico de “língua correta” que os acadêmicos ainda perseguem?

Diz o mesmo site que a conferência “Magma” (isso mesmo, magma) foi proferida por Evanildo Bechara. E que, entre os debatedores estiveram Arnaldo Niskier (que sabe tanto de linguística quanto o boxeador Anderson Silva) e a onipresente Dad Squarisi, uma das figuras mais patéticas que tive o desprazer de conhecer pessoalmente. Essa defesa deve ter sido um festival de horrores!!!

carosamigos

QUEM MANDA NA LÍNGUA?

Certa vez, num congresso de linguistas, depois que falei para uma plateia com mais de mil pessoas, um senhor se levantou e pediu a palavra. Disse que o meu trabalho era uma “irresponsabilidade” porque, segundo ele, eu “mandava” os leitores dos meus livros usarem o advérbio “meia” (“ela está meia cansada”), que eu “mandava” usarem o pronome “ele” como objeto direto (“conheço ele bem”), entre outras coisas. E terminou dizendo que, falando e escrevendo como eu “mandava”, ninguém poderia subir na vida e ter, por exemplo, um salário bom como o meu.

Comecei respondendo que, como todos sabemos, os brasileiros apresentam um elevadíssimo grau de deficiência nas habilidades de leitura e que uma prova cabal era precisamente a fala daquele senhor. Definitivamente, ele tinha lido nos meus livros coisas que não estavam impressas neles. Em seguida, chamei a atenção para o fato de que, ao contrário do que ele dizia, eu não mandava ninguém fazer nada, apenas afirmava que, ao lado das formas tradicionais prescritas pela gramática normativa, já tinha passado da hora de também (essa é a palavra que ninguém parece querer ouvir) TAMBÉM admitir como igualmente válidas e corretas as formas alternativas de falar e escrever consagradas há mais de século e meio no português brasileiro, inclusive na escrita literária mais prestigiada. Quem quiser continuar dizendo “ela está meio cansada”, sinta-se à vontade, mas pare de dizer que “meia cansada” é errado, feio, ilógico etc. Quem quiser usar mesóclise, use e seja feliz, mas deixe em paz as pessoas que querem começar frase com pronome oblíquo, porque é assim que funciona o português brasileiro.

O uso do verbo “mandar” na fala do meu acusador é um excelente sintoma de sua ideologia linguística. Ao dizer que eu mandava, na verdade era ele que queria mandar NÃO usar aquelas formas linguísticas. Nada que nosso velho amigo Freud não explique. Em tudo o que escrevo, faço questão de deixar claro que não quero fazer um prescritivismo às avessas, não quero que ninguém substitua regras antigas por regras novas, mas simplesmente que se reconheça a validade do que é o português brasileiro atual, junto com as formas tradicionais de falar e escrever a língua. Eu mesmo, quando escrevo poesia, por exemplo, uso essas formas tradicionais quando elas se encaixam melhor no ritmo do verso, quando criam algum efeito interessante ou mesmo quando ajudam na rima. De vez em quando recebo mensagens estúpidas de gente que me pergunta por que, já que defendo os “erros de português”, faço questão de escrever meus livros “tudo certinho”. É preciso fazer força para conter a vontade de responder com alguns bons palavrões, mas, repito, a deficiência de leitura é mesmo séria nesse país.

Ninguém manda na língua. Se fosse possível conter as mudanças linguísticas, os mil anos de tentativas de repressão sofridas pelos falantes de português teriam dado algum resultado positivo. Não deram. Quando tentamos ler um texto do século XIII, não entendemos praticamente nada. Se alguém mandasse (e conseguisse fazer) a língua ficar parada no tempo, nós hoje falaríamos latim e não português. É tão óbvio que dá até vergonha dizer isso.

Quanto ao comentário sobre o meu salário, todos sabem perfeitamente bem que os professores das universidades federais têm um dos piores salários e planos de carreira do funcionalismo público. Eu, que moro em Brasília, sei perfeitamente bem que um funcionário da Câmara ou do Senado com ensino médio ganha bem mais do que nós, além de contar com muitos benefícios paralelos. Talvez seja justamente por esses motivos que a nossa educação vai tão mal, obrigado.

carosamigos

QUANTO CUSTA UM DOUTOR?

Marcos Bagno

março de 2011

Pelo que já li e me disseram, uma tese de doutorado ou, mais modestamente, uma dissertação de mestrado, pode ser comprada (e por preço nem tão alto assim) de alguma das muitas empresas especializadas nesse comércio. Que haja quem compre e quem venda trabalhos intelectuais não é algo tão espantoso na nossa era “pós-moderna” em que nada tem valor e em que a relação com o conhecimento se dessacralizou completamente, passando de um extremo negativo — a erudição pedante, o elitismo da educação clássica, a mitificação do grande sábio — para o outro extremo, tão negativo quanto: o utilitarismo rasteiro, a fachada ou o verniz de conhecimento, o título já não como um símbolo mas como a coisa-em-si. O espantoso (o escandaloso) é haver quem aprove esses trabalhos com mérito e louvor e ainda recomende para a publicação. Aliás, recomendar uma tese para publicação virou uma expressão vazia, tanto quanto aplaudir de pé todo e qualquer espetáculo cênico, por menos original e por pior que ele seja. Assim como se levantar para aplaudir é só uma antecipação do gesto de ir embora, recomendar uma tese para publicação é só uma fórmula oca para encerrar o processo da defesa.

No entanto, o escândalo não fica por aí. Pior do que aprovar uma tese feita por terceiros é aprovar uma tese feita por alguém que supostamente teve a orientação de um pesquisador experiente. As teses compradas costumam ser produzidas por pessoas que obtêm ganhos materiais com seus talentos de boa redação e capacidade de juntar ideias. As teses feitas pelos próprios doutorandos — guardadas, é claro, as exceções de praxe — se revelam cada vez mais “sambas do branquelo doido” (já que 99% dos nossos doutores são de “raça” caucasiana). Na área das Letras, que é onde eu atuo, o absurdo se torna ainda mais imperdoável quando, a cada página da tese, aparecem pelo menos quinze erros de ortografia, pontuação, concordância, vocabulário, para não mencionar os disparates teóricos e as metodologias de análise quase infantis.

A grande maioria dos meus colegas lê (quando lê) a tese na véspera ou mesmo no avião que os leva para o evento da defesa. Com isso, é claro, os arguidores só topam com os problemas do trabalho pouco antes de se sentar à banca, problemas que são para eles pura surpresa. E toca a aprovar e a elogiar o besteirol que aparece ali.

Nessa produção acadêmica “pós-moderna”, o que importa é a quantidade. Um programa de pós-graduação tem que preencher infinitos relatórios para as agências financiadoras (Capes e Cnpq) e quanto mais números, melhor. Duzentas dissertações de mestrado defendidas e aprovadas em dois anos? Maravilha! Não interessa se elas não poderiam ser aceitas nem como um trabalho de pesquisa da 8a série, só interessa que estão lá, de capinha dura e letra prateada enfeitando (para ninguém ler) as estantes do programa. As pessoas riem quando conto que Wittgenstein, um dos filósofos mais importantes do século XX, levou mais de uma década para terminar sua tese, como se tivessem pena dele… Com os prazos absurdos exigidos pelas agências, com o número absurdo de doutorandos que alguns orientadores (?) acolhem, a produção intelectual brasileira virou, nas palavras de Marilena Chaui, uma “fábrica de pãezinhos”. Todos feitos com bromato de potássio, ocos, com cheiro azedo e incapazes de prover uma boa alimentação ao nosso espírito.

carosamigos