HIGIENE VERBAL?

Marcos Bagno

Em 1995, a linguista inglesa Deborah Cameron publicou um livro com esse título (Verbal Hygiene). Segundo ela, os seres humanos não só falam línguas como também falam sobre as línguas que falam e que os outros falam. É da própria natureza da espécie, como única dotada de linguagem verbal. Assim, por higiene verbal ela entende toda e qualquer intervenção consciente na vida das línguas, sejam quais forem os efeitos, sejam positivos ou negativos.

Uma higiene verbal de grande efeito positivo tem sido, por exemplo, o emprego da chamada “linguagem inclusiva”, em que a suposta neutralidade do masculino é negada e bem marcada como o que de fato é (opressão machista), levando à criação de termos que sejam de fato neutros e incorporem as pessoas dos dois sexos (em inglês, por exemplo, “Mankind” foi substituído por “Humankind”, humanidade, gênero humano). Também é um tipo de higiene verbal (positiva?) o chamado “politicamente correto”, em que termos considerados menos marcados ou não ofensivos são empregados para afastar a carga pejorativa que os termos anteriores sempre tiveram (“comunidade” por “favela”, “deficiente físico” por “aleijado”, “afro-descendente” por “preto” etc.). Parece, no entanto, que o tal politicamente correto foi gestado nos ninhos fedorentos de direita norte-americana: arrenego!

A higiene verbal negativa é aquela que recorre ao autoritarismo para tratar de questões linguísticas. Por exemplo, na Espanha franquista todas as línguas regionais do país (galego, leonês, catalão, basco etc.) foram proibidas, sob pena de morte para quem ousasse defendê-las. É o exato contrário de políticas linguísticas positivas como, entre outros, a que reconhece o guarani como língua oficial do Paraguai, ou a que tornou co-oficiais no município amazonense de São Gabriel da Cachoeira as línguas tucano, baníua e nheengatu, ao lado do português.

E, é claro, a higiene verbal mais antiga da história é a que recebe o nome de purismo linguístico. Ela é eminentemente burra, porque recusa qualquer visão científica e racional sobre questões de língua. E, para impor sua burrice, é autoritária e repressora.

Nos últimos tempos, tivemos no Brasil alguns típicos exemplos de higiene verbal: a proposta de lei contra os estrangeirismos, a adoção da ortografia única para todos os países de língua oficial portuguesa, o debate sobre o “gerundismo” (fenômeno gramatical que nem sequer existe!), o emprego do feminino “presidenta” e, mais recentemente, a polêmica em torno de um livro didático adotado pelo MEC. Todos esses debates, liderados pela mídia conservadora, só puderam ser o que foram: burros e autoritários. Isso ficou claro no último deles, quando a percepção de uma tentativa mínima de promover uma educação linguística mais democrática e cientificamente embasada deixou tanta gente supostamente letrada de cabelo em pé e vociferando asneiras.

Em tempo: o que a revista Veja faz quando o assunto é língua não é higiene verbal. É fascismo mesmo!

carosamigos

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